rainbow09: (Let's Fight)
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A amizade do Taichi e do Yamato é (e provavelmente sempre será) um dos meus temas favoritos em Digimon Adventure. Estes dois são a razão pela qual ainda permaneço neste fandom depois de tanto tempo; acho que a relação deles é também mais do que aparenta.

Não é raro encontrar pela internet comentários confusos a indagar, afinal de contas, como podem os dois personagens ser tão amigos depois de todas as lutas pelas quais passaram?

Por esse fandom fora, já li quem argumente que a relação de amizade entre o Taichi e o Koushirou merece mais destaque, porque durante os episódios a única pessoa com quem o Taichi alguma vez desabafa (por exemplo, quando a Hikari fica doente) é justamente o Koushirou durante o arco do Mestres das Trevas. O Koushirou é classificado como "a pessoa a quem o Taichi pode contar tudo" no livrete do jogo de PSP que saiu faz dois anos.

Não é que eu discorde de todo. Parece-me apenas que, quando o Kakudou decidiu tornar o Taichi e o Yamato "melhores amigos" na segunda temporada, ele queria passar outro tipo de mensagem.

Quando o Daisuke fica furioso e de repente se atira à garganta do Takeru com vontade de o estrangular (episódio 11 xD), o Taichi grita para o resto do grupo deixá-los lutar, e explica porquê (imagem ao lado).

A minha primeira reacção quando ouvi isto há uns anos foi um belo "what the fuck", admito; mas quando se pára para pensar no assunto, isto faz mais sentido do que devia - e não é tão difícil assim compreender o que o Taichi quer dizer.

Estes dois sempre foram apresentados como "opostos" um do outro. Sempre que o Taichi quer sair para ir explorar território, quase seguramente está lá o Yamato para o deter.

Nos primeiros episódios de Digimon Adventure, há um momento no qual o Taichi propõe subir ao monte Mugen (a montanha mais alta) para conseguir ter um campo de visão maior do lugar onde estão perdidos. A ideia é que o grupo possa decidir sobre o que fazer, numa altura em que todos estão cansados e fartos de procurar por sinais de civilização humana sem qualquer sucesso. O Yamato, contudo, está muito mais preocupado com a segurança do grupo e argumenta que é perigoso que crianças da idade deles se ponham a escalar e a subir uma montanha daquela, para não falar que o dito lugar tem fama de habitado por monstros selvagens e perigosos.

Vemos este padrão repetir-se em muitos dos episódios seguintes; o conflito vai-se desenvolvendo até atingir um climax, durante ao último arco com os Mestres das Trevas. O Taichi encoraja o grupo com a personalidade determinada que o caracteriza, dizendo a toda a gente para não desistir e não perder a esperança, continuando a olhar em frente para derrotar o próximo Mestres das Trevas. É nesta altura que o Yamato confronta-o e pede que ele vá mais devagar, sensibilizado pela alma destroçada da Mimi, que sente necessidade de parar para olhar para trás e fazer o funeral de todos os amigos que se sacrificaram e que morreram para os proteger.

O Taichi quer compensar a dor ao certificar-se que os amigos deles não morreram em vão e que o grupo pode voltar para casa o mais brevemente possível (quanto mais depressa terminarem ali a missão deles, melhor)….. Já o Yamato quer acalmar a dor ao garantir que o grupo tem tempo suficiente para descansar e recuperar a moral (a situação que estão a viver coloca muita pressão psicológica e mental sobre o grupo, especialmente em pessoas como a Mimi que, a este ponto, parece estar sempre com vontade de chorar de nervos).

Esta dicotomia, na qual um "acelera" e o outro coloca um "travão" no processo, define praticamente toda a dinâmica da relação deles. Por trás da máscara da rivalidade aparente, tanto o Yamato como o Taichi ajudam-se um ao outro quase sem dar por isso: um deles está sempre a guiar as atitudes do outro, e um está sempre a inspirar o outro a dar o melhor de si.

Desta forma, os protestos do Yamato são de grande ajuda para o Taichi saber quando (e como) deve controlar os impulsos naturais que ele tem para tomar decisões precipitadas. 

Quando o Yamato decide deixar o grupo, seria de esperar que o Taichi desfrutasse da liberdade recém-adquirida e agisse à sua vontade. Todavia, não é isso que acontece. Quando o grupo sugere atacar o quartel-general do Pinnocchimon, o Taichi demora muito mais tempo do que o habitual para tomar uma decisão. Vê-mo-lo de braços cruzados e olhos fechados a pensar seriamente no que fazer e a pergunta que ele faz a ele próprio é: "O que diria do Yamato nesta situação, se ele estivesse aqui?". Claramente, ele sente a falta da opinião do Yamato - o filtro dele.
 
Isto também é válido ao contrário: o Yamato vê-se tão intrigado com o optimismo e espírito encorajador e até inspirador do Taichi que sente que devia ser um pouco mais como ele. "Se eu fosse como o Taichi, talvez o Takeru gostasse e precisasse mais de mim". Ao pensar demasiado nos problemas ele, Yamato cai em depressão profunda e afunda-se no sentimento e crença de que ninguém precisa dele, nem sequer o irmão mais novo dele. Já vimos que isto não é verdade. O Taichi sente a falta dele.
 
Isto para mim significa que a rivalidade entre estes dois personagens e as lutas esporádicas são mais circunstanciais do que baseadas em puro orgulho. Em vez de orgulho ou más intenções, penso que ambos os personagens estão sinceramente confusos sobre o porquê que o outro não consegue compreender o ponto de vista deles.

É no episódio 45 de Adventure que o Yamato percebe a situação e explica que, no caso dele, não se trata de uma questão de se estar certo ou enganado, mas simplesmente que ele e o Taichi têm modos de actuar diferentes.

É também neste episódio que a Hikari é possuída pelo espírito dos Homeostasis (os seres invisíveis que elaboraram a profecia) e explica, resumidamente, o conceito do Yin e do Yang, dando a entender que a verdadeira missão das crianças escolhidas é fazer a manutenção dessas forças aparentemente opostas, para garantir o equilíbrio de ambas no mundo digital.
 
De facto, quando eu tinha uns 12~16 anos, costumava tirar partido do Taichi e pensava que o Yamato gostava de contradizê-lo simplesmente porque era casmurro e teimoso. XD Agora acho que o meu ponto de vista daquela altura era tão inocente e ingénuo como o do Taichi.

O Yamato é um personagem impressionante e bastante maduro para idade que representa (e parece particularmente consciente da situação em que se encontra, apesar da tenra idade). Ele não é apenas teimoso - ele apresenta argumentos francamente válidos. O único problema do Yamato é ele não saber como exprimir o universo emocional dele em palavras (ao contrário do Taichi, que sempre foi mais vocal e extrovertido, ao ponto de poder parecer frio e indelicado, por vezes).
 
Com certeza deve haver fãs por aí que passaram pelo processo inverso. Fãs que, pelo contrário, sempre concordaram e tiraram partido do Yamato, que aprenderam, com o tempo, a valorizar a destreza do Taichi no que respeita a tomar decisões e assumir riscos nas horas em que ninguém sabe ao certo o que fazer e o mundo inteiro parece uma incógnita. Há alturas em que precisamos que agir em território desconhecido e descobrir as coisas à medida que vamos agindo, às cegas. A vida dos adultos e da maioridade está cheia de momentos assim; é preciso coragem para deixar a nossa zona de conforto e fazer o que tem que ser feito.

Em Digimon Adventure 02, o Yamato ainda é o mesmo personagem que se preocupa com os amigos, mas torna-se mais relaxado e menos tímido. Vê-mo-lo a exprimir muitas das emoções e pensamentos dele, sem quaisquer filtros.

O Taichi também muda graças ao Yamato. 

Em 02, ele parece investir mais tempo a ouvir e pensar (colocando-se no lugar dos outros) antes de tomar quaisquer decisões que possam ser precipitadas. Consegue dar ouvidos ao pedido do Daisuke para se juntar ao Ken (que vive longe em Tamachi) enquanto o mundo inteiro está a ser atacado (Episódio 39: vários portais digitais abrem-se sem controlo em França, Rússia, Estados Unidos, e algo precisa de ser feito sobre os vários digimons à solta). O Taichi tenta chamar o Daisuke à razão e fazer-lhe ver que precisam de agir o mais rapidamente possível, mas quando o rapaz mais novo insiste que não pode deixar o Ken para trás não importa como, o Taichi compreende mesmo não concordando e deixa-o ir em paz. A capacidade de liderança dele aqui está mais refinada.

Quando prestamos atenção a este tipo de desenvolvimento, é assim tão impressionante que a relação entre o Taichi e o Yamato tenha progredido de "rivais" para "melhores amigos"?

Será que isto não é exactamente do que trata a amizade? Talvez não seja de todo relacionada com "dar-se sempre bem", ou "ter sempre opiniões em comum" ou sequer "ter personalidades parecidas e em sintonia". Embora isto possa existir numa boa relação, qualquer pessoa com o mínimo de destreza social consegue fazê-lo.

A verdadeira amizade, no meu entender, começa quando há sinceridade, frontalidade, discussões até, tudo como um processo de aprendizado (lutaremos e vamos ter muitos confrontos durante este processo) mas no final aprendemos a respeitar as diferenças um dos outros e aceitamos essas diferenças de boa, numa atitude de "concordemos em discordar" quando necessário, sem deixar que as visões e opiniões diferentes interfiram com as relações pessoais. Quando há este tipo de respeito, abre-se espaço para a confiança mútua e criam-se laços duradouros nos quais a outra pessoa torna-se tão importante para nós que poderíamos dar a vida por ela.

No final, apesar de tudo, as duas partes ainda devem ser capazes de ouvir-se e respeitar-ser mutuamente.
 
O Taichi e o Yamato não foram o meu primeiro contacto com a fórmula clássica do "herói e do lobo solitário" que faz parte da tradição de uma grande fatia das ficções japonesas para o público shounen, mas foram os primeiros a chamar a minha atenção e a causar-me interesse em aprender a respeito.

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